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VIRÁ QUE EU VI

 

 

 

        Esta é a história de uma cena que foi ensaiada e repetida durante mais de 500 anos. Nada mudou. A foto de Lula Marques, da Folha de São Paulo, feita no dia 22 de abril de 2000 em Porto Seguro, Bahia, tornou-se símbolo da festa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Num cenário perto da praia da Coroa Vermelha onde Pedro Álvares Cabral desembarcou em 1500, a fotografia mostra um índio indefeso e quase nu debaixo de uma tempestade, sendo atropelado por um batalhão de soldados armados até os dentes, com fuzis e bombas de gás lacrimogêneo. Como se ainda não bastasse, o autor da foto foi espancado e preso.

        O governo preparou uma grande festa, mas era uma festa de “branco”. A polícia militar baiana armou com antecedência um cordão de isolamento da cidade: os índios não eram bem vindos. Toda a imprensa estava chegando a Porto Seguro. O jornal Folha de São Paulo estava com uma equipe de cinco fotógrafos, mas achou pouco, pois era grande a quantidade de eventos e manifestações. Na noite de sexta -feira, véspera da comemoração, o fotógrafo Lula Marques da sucursal de Brasília foi avisado que iria embarcar para Porto Seguro para reforçar a equipe. Parecia estar adivinhando. Uma semana antes no Congresso Nacional em Brasília, o cacique Henrique Iabaday, da tribo Suruí, de Rondônia, integrante da Marcha para a Conferência Indígena 2000, furou a segurança numa solenidade e apontou uma flecha para o rosto do então presidente do senado Antônio Carlos Magalhães. Lula Marques estava presente e não esqueceu as palavras do índio: “Nós vamos entrar em Porto Seguro de qualquer maneira, já mataram 100 milhões de índios se matarem mais 10, 100, 1000 não vai fazer falta”. Aquelas palavras ficaram marcadas na cabeça do fotógrafo da Folha que chegou a salientar numa reunião da redação, sobre a necessidade de se dar uma atenção especial às manifestações dos índios na comemoração dos 500 anos do descobrimento, onde paralelamente acontecia a Conferência Indígena 2000. Lula embarcou num vôo às 20:00 h e depois de várias escalas e conexões desembarcou em Porto Seguro às 4:00h da manhã de sábado, dia 22, o dia D.

        Ao encontrar-se com os outros fotógrafos da Folha, sem ter conseguido dormir, Lula ficou sabendo que cada um já estava com seus pontos de cobertura escolhidos: uns iriam cobrir o evento com o presidente em vários lugares, outro iria para a passeata do MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em local diferente. Restou para ele a assembléia dos índios, em Santa Cruz Cabrália. Os integrantes da Conferência Indígena 2000 decidiram, por unanimidade, entrar em Porto Seguro de qualquer maneira. Na estrada de 20 quilômetros de Porto Seguro a Cabrália, Lula tinha visto várias barreiras da Polícia Militar e começou a sentir cheiro de confusão. De um lado estavam 4000 índios armados de borduna e arco e flecha e de outro, centenas de soldados da Policia Militar baiana, muitos da tropa de choque, armados de escudos, cacetetes, revólveres e bombas de gás lacrimogêneo. O fotógrafo, a esta altura desesperado, começou a ligar para seus colegas pedindo ajuda, mas todos já estavam em seus postos e não podiam mais se deslocar.

        Os índios foram seguindo pela rodovia na direção de Porto Seguro e passaram sem problemas por algumas barreiras da Polícia Militar até que a dois quilômetros do local do evento eles se encontraram com a tropa de choque da PM baiana.  Eram 11h quando 300 policiais armados com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha barraram os 4.000 índios que vinham de Coroa Vermelha. Os policiais começaram a atirar bombas de gás lacrimogêneo. Os índios reagiram com pedras e flechas. Lula Marques e os outros fotógrafos colocaram-se ao lado de um poste na beira da estrada enquanto bombas e flechas cruzavam o céu. O presidente da FUNAI - Fundação Nacional do Índio, Carlos Frederico Marés estava à frente dos índios de braços abertos apelando para que se parasse a violência. O comandante da tropa de choque, com uma máscara de gás na cabeça, atirava bombas sem parar e gritava enlouquecido: “Eu adoro isso, eu adoro isso, eu quero mais!” Chovia muito quando o índio Gildo Terena, de 18 anos se destacou do grupo e foi de braços abertos em direção à tropa. O comandante investiu contra o rapaz já virando a arma para lhe dar uma coronhada quando um tenente mais sensato entrou no meio dos dois, pegou Gildo pelo braço e o empurrou para um canto. A tropa continuou avançando dando tiros de gás. Lula Marques com os olhos ardendo afastou-se uns 50 metros junto com os outros fotógrafos. A chuva aumentou fazendo com que o gás escorresse pelo rosto aumentando a ardência. Era tanta chuva que os fotógrafos enxugavam constantemente as lentes e as câmeras digitais que, sendo totalmente eletrônicas, são muito sensíveis à umidade. A câmera do fotógrafo Eraldo Peres, da Photoagência travou, impedindo-o de continuar a fotografar.

De repente, pela segunda vez, Gildo Terena caminhou em direção à tropa e  ajoelhou-se quando o mesmo tenente, pegou-o pelo braço novamente com a maior calma  e o afastou. A cada movimento dos índios a tropa avançava e os fotógrafos eram obrigados a sair do caminho e ir para a lateral da estrada. Os índios recuavam, se dispersavam e tempos depois se reorganizavam. Num desses momentos, o índio Terena partiu pela terceira vez, seminu e sem camisa, na direção da tropa e deitou-se no chão molhado. Lula Marques e os outros fotógrafos posicionaram-se entre os índios e a PM. Desta vez sem hesitar, o comandante gritou: “Atacar!”, avançando com a tropa. Todos os fotógrafos saíram da frente menos o Lula Marques que se agachou. A adrenalina disparou, suas pernas começaram a tremer, mas ele esqueceu o medo e ficou na frente da tropa que avançava em direção ao homem deitado na sua frente. Ele não queria perder a foto. Com a lente de sua câmera  toda molhada, Lula disparou várias fotos. O comandante gritava e atirava enquanto passava impiedosamente por cima do índio e por cima do fotógrafo. Lula caiu no meio do batalhão que o atropelou  dando muitos golpes de cacetete e escudo enquanto os soldados gritavam: “Sai!sai!”. A esta altura Lula conseguiu sair para o lado da estrada. A tropa continuou avançando e disparando bombas contra os índios. Sem ainda saber direito a foto que tinha, Lula continuou fotografando pela lateral. Depois de um tempo os policiais conseguiram conter a manifestação dos índios, isolando-os na estrada. Mais calmo, o fotógrafo da Folha se apercebeu da importância da foto que tinha feito, lembrando-se que era sábado e o jornal fechava mais cedo – já era 1 hora da tarde. Depois de um tempão, Lula conseguiu encontrar o repórter Marcos Vita que estava com ele fazendo a cobertura da confusão. Juntos, eles entraram no carro e Lula, com muita pressa, acelerou para sair. O tenente César Ricardo da PM baiana que estava na pista gritou “Devagar !”. Lula olhou para ele, fez um gesto mostrando o relógio batendo com o dedo indicador e disse “Tô atrasado !”. O carro arrancou, só andou uns  500 metros e parou num engarrafamento. Lula não sabia até então o que o tenente César Ricardo tinha entendido com  aquele gesto do dedo no relógio, mas quando olhou pelo retrovisor viu o policial correndo, armado e babando. O fotógrafo desceu do carro e disseo que que é isso?”. O tenente,  por sua vez, veio segurando a arma na mão esquerda e com a mão direita deu um forte tapa acertando no pescoço e na orelha de Lula Marques. Começou uma discussão que juntou um grupo de jornalistas para defender o fotógrafo da Folha de S. Paulo. Depois de muito “bate boca”, Lula foi preso e levado para uma delegacia. Agora, depois de todo o “stress” pelo qual passou para fazer a foto, além do tapa que levou sem poder reagir, Lula estava desesperado por ainda não ter transmitido a foto do índio.

       O tempo ia passando, o fechamento da edição de sábado seria cedo e Lula estava ansioso para comunicar-se com a redação do jornal em São Paulo para dizer  que  tinha a foto mais importante da cobertura e que ainda por cima estava sendo preso. Por sorte, o repórter da Folha Marcos Vita era filho do secretário de comunicação do governo da Bahia e ligou  para  o pai pedindo ajuda. Inicialmente na delegacia, Lula foi muito mal tratado e a delegada de plantão não permitiu que ele usasse o computador para transmitir as fotos. Aos poucos, Lula foi explicando para a delegada da importância de transmitir o material para o fechamento do jornal e ela o autorizou a transmitir cinco fotos para que ele se acalmasse. Quando Lula ligou o computador e a delegada viu as fotos, a situação mudou como da água para o vinho: “Que maravilha!!, essa foto é para prêmio”, disse a delegada, a primeira pessoa a elogiar a foto. O tenente agressor não entendeu nada quando entrou na sala e  viu o fotógrafo sentado na mesa da delegada transmitindo as fotos enquanto que ela estava sentada no sofá. Lula transmitiu cinco fotos e depois ficou à disposição da Polícia. Prestou depoimento, foi liberado e desistiu de ir ao Instituto Médico Legal para comprovar a agressão da polícia. Resolveu deixar para lá e ir descansar.

      Enquanto isso, na redação da Folha em São Paulo, a edição estava sendo fechada com uma foto da solenidade do presidente Fernando Henrique e com uma outra foto da manifestação, de uma agência internacional. O editor da primeira página naquele dia não tinha dado a devida importância para a foto enviada por Lula.  Às 18 h, a agência  Reuters comprou esta foto da Folha e colocou no sistema de vendas aos seus assinantes.  O editor de fotografia da Folha,  João Bittar, viu a bela foto de Lula no site da Reuters e avisou ao editor. Graças à Reuters e ao Bittar, a foto da  primeira página foi trocada e finalmente publicaram a de Lula Marques. Esta fotografia ainda foi publicada em várias primeiras páginas de outros jornais do país e rendeu ao fotógrafo da Folha dois importantes prêmios.

 

        Fico imaginando como esta cena poderia acontecer na comemoração dos 1000 anos do Descobrimento do Brasil, e me vem à cabeça trechos da música “Índio” de Caetano Veloso: “Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante...de uma estrela que virá numa velocidade estonteante...e pousará no coração do hemisfério sul, na América num claro instante...Depois de exterminada a ultima nação indígena...E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida...Mais avançado do que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”. Virá ele, o índio, e entrará em Porto Seguro a pé pelas ruas “preservado em pleno corpo físico, em todo sólido, todo gás e todo líquido, em átomos, palavras, alma, cor, em gesto, em sombra, em luz, em som magnífico”. Não haverá polícia no ano 2500, apenas a população vivendo em Paz. Milhares de pessoas estarão em silêncio vendo o índio entrar na cidade “impávido que nem Mohamed Ali,... apaixonadamente como Peri,... tranqüilo e infalível como Bruce Lee, ...o axé do afoxé Filhos de Ghandi”. E todos admirados e emocionados começarão a aplaudir o índio caminhando de cabeça erguida  no meio das pessoas. Um descendente do fotógrafo Lula Marques estará registrando esta imagem em uma câmera do tamanho de um botão e de altíssima resolução. “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos...Surpreenderá a todos não por ser exótico...Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto...Quando terá sido o óbvio”. Virá que eu vi.

 

André Dusek